OCINÓRI - A Tasquinha do Irónico

quarta-feira, novembro 01, 2006

A ALDEIA

Ninguém me consegue convencer que uma aldeia não é um ser vivo. Ela nasce algures no tempo, sempre pelas mãos dum homem heróico e extraordinário. Depois vive dia após dia e, mais tarde ou mais cedo, acaba por declinar e morrer.

É uma vida inquietante, assim como a de todos nós, que tem os seus momentos de rotina pontuados aqui e ali com um sabor diferente.
Há sempre aquelas que se destacam: vivem não ao sabor do vento mas contra a maré, possuem peculiaridades que as tornam deliciosas e amargas. Conheço uma assim. Nasceu no meio de serras, lutou pela liberdade, sem medo, em 1958, mas mesmo assim viu-se envolta na monotonia que apanha todos. Contudo, no início de cada novo ano a Aldeia começa a fervilhar. Algo acontece que faz sacudir essa monotonia. Os preparativos iniciam-se: o Carnaval é daí a poucos meses. É preciso falar com a Graça… e com o Fernando também. Não te esqueças, esse ajuda sempre. Todos os braços são poucos para montar o Cortejo. Mas há qualquer coisa mais: movimentações de bastidores, troca de informações… As duas semanas anteriores ao Carnaval são uma azáfama. As filas no posto médico diminuem vertiginosamente: deixa de ser preciso ir apanhar vez às 6 da manhã. A Aldeia trabalha a dobrar e depois sai para a noite para tocar às campainhas, fazer badalos e caqueiradas, fugir pelas ruas e gritar É Carnaval, ninguém leva a mal. Mas há sempre uma noite mais especial, mais aguardada… A noite em que as informações recolhidas tomam corpo de quadras. A noite em que as máscaras caem e nenhum solteiro ou solteira está a salvo da verdade. Noite complicada noutros tempos: quase uma sentença de morte para alguns. Nos dias de hoje é a noite em que a Aldeia se liberta, sai do seu caminho responsável e se comporta mal.
Depois dessa noite mal dormida e do dia de Carnaval a rotina volta a instalar-se. É preciso limpar o lixo da festa. É preciso voltar a acordar às 6 da manhã para conseguir uma consulta. Mas a Aldeia sabe que para o ano há mais, e que são esses momentos de loucura e irresponsabilidade que lhe permitem viver.
Ninguém me consegue convencer que esta Aldeia não é um ser humano.

(foto roubada ao jp - tem talento o rapaz, não acham?)

20 Comments:

  • Uma surpresa simpática num registo que muito me agrada.
    Pese embora eu ser completamente alheio ao carnaval e vice versa - mas tb não é disso que versa a posta!
    Um grande saludo!

    By Blogger Gustavo, at 2:15 da tarde, novembro 02, 2006  

  • Gostei, pois que mais se pode dizer quando se gosta?
    Compartilho da mesma ideia. Não sou oriunda de nenhuma aldeia, mas felizmente os meus pais são. Se é verdade que tem os seus aspectos menos bons não é menos verdade quem tem os aspectos bons... É completamente diferente passar o Natal, Carnaval ou Páscoa numa aldeia.

    By Anonymous Anónimo, at 3:22 da tarde, novembro 02, 2006  

  • Muito agradecida a ambos:)
    As aldeias, como tudo, têm aspectos positivos e negativos, mas são sempre especiais.

    By Blogger Ana, at 3:02 da tarde, novembro 03, 2006  

  • De nada Ana, afinal o paraíso não teria o mesmo significado sem o inferno... ;)

    By Anonymous Anónimo, at 8:17 da tarde, novembro 03, 2006  

  • Gostei dessa;)

    By Blogger Ana, at 9:34 da tarde, novembro 03, 2006  

  • Olha a Igreja de Brasfemes!

    By Anonymous Anónimo, at 10:37 da tarde, novembro 03, 2006  

  • Estava inspirada! Mau mas todos conhcem a igreja da foto menos eu? Daqui a pouco sinto-me excluída... ;)

    By Anonymous Anónimo, at 11:24 da tarde, novembro 03, 2006  

  • Ando a seguir os passos da irascivel miuda. A minha bela aldeia tinha um bonito sino quando tocou a rebate até o sacristão fez o pino.

    By Anonymous D. Gervásia, at 12:18 da manhã, novembro 04, 2006  

  • ... Olha a Igreja de Brasfemes.... como é bela!
    So quando já não passamos lá tanto tempo é que damos valor... e mais valor! Saudades! Saudades dessa aldeia global, dos amigos, do tempo...
    Das actividades... do CRAC...
    Obrigado Ana, trazeres um perfume da terra que me adoptou...

    By Anonymous tentini, at 9:27 da manhã, novembro 06, 2006  

  • eu, de Brasfemes, só conheço a casa do Tente, o Mocas e uns tascometros....

    By Blogger Gustavo, at 1:57 da tarde, novembro 06, 2006  

  • Gustavo tens que convencer o Tente a levar-te lá novamente ou no Carnaval ou no Dia da Freguesia:) E depois podes fazer uma pequena visita à Igreja. Independentemente da tua crença acho que é uma visita que vale a pena.

    By Anonymous Anónimo, at 2:51 da tarde, novembro 06, 2006  

  • E o orgão, quando é que volta a funcionar (o da igreja, seus tarados)?

    By Anonymous Anónimo, at 7:15 da tarde, novembro 06, 2006  

  • Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

    By Blogger Tentini, at 7:55 da tarde, novembro 06, 2006  

  • E devias conhecer mais... e se não conheces não é por falta de convites... dos Mocas claro! Sim por que eu não abano a cauda quando te vejo!
    Gustavo... cuidado! A Ana quer te evangelizar... Espera aí... O único ateu no meio de isto tudo sou eu! Bai lá meu filho... Bai beijar a maõe ao Senhore!
    Órgão? Ó Ana a igreja tem órgão?
    Só conheço mesmo os tascos...
    Ana (agora mais a sério)... Só tenho pena que o envolvimento da freguesia não seja maior... Sem dúvida que dá para ter orgulho no nosso carnaval (todo ele feito com... gosto à freguesia e não só)! Tenho saudades do CRAC, tenho saudades desses dias de BTT, de Teatro, do dia da Freguesia, dos domingos que havia bola e todos no adro... dos bailes no salão, do Manfio's Bar.... sei lá tanta coisa! Mas afinal Brasfemes é uma aldeia igual a tantas outras... mas esta é melhor... é minha!

    By Blogger Tentini, at 7:57 da tarde, novembro 06, 2006  

  • Sim há um orgão antigo que já foi restaurado há alguns anos. Já funciona, o grande problema é não haver quem tenha conhecimentos suficientes para o tocar.Pelo menos era esta a situação aqui há uns anos, não sei mto bem se se mantém. Sabes umas quantas coisas de Brasfemes Rafeiro...;)
    Talvez os habitantes nem sempre se envolvam, mas comparando com outros locais ainda são bastante activos. É óbvio que para quem faz, para quem dá a cara, o envolvimento dos outros sabe a pouco, mas hoje, depois de conhecer outras realidades tenho a certeza que os brasfemenses ainda fazem muito pela terra.:)

    By Blogger Ana, at 10:36 da tarde, novembro 06, 2006  

  • Ó JP, esclarece lá a Ana que eu sou um filho dessa terra...

    By Anonymous Anónimo, at 5:12 da tarde, novembro 07, 2006  

  • Ainda não estou esclarecida (ó JP se faz favor...) mas este mundo (da blogosfera e não só) é mesmo pequeno!

    By Blogger Ana, at 5:44 da tarde, novembro 07, 2006  

  • onde se situa Brasfemes??
    ja ouvi falar dessa aldeia
    não creio que seja perto da minha

    mas ninguém adora mais a minha aldeia que eu..
    gostei

    By Blogger luantes, at 9:12 da tarde, setembro 29, 2007  

  • luantes:

    Brasfemes situa-se a cerca de 10 km de Coimbra, na direcção Norte. E uma aldeia vizinha de Souselas (de quem toda a gente já ouviu falar por causa da co-incineração)

    By Blogger Ana, at 11:59 da tarde, setembro 29, 2007  

  • este site talvez ajude se tiveres mais interesse
    http://brasfemense.no.sapo.pt/index.htm

    By Blogger Ana, at 12:23 da manhã, setembro 30, 2007  

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